Imemorial

Lara Perl

ISBN    9786599021710   
Formato 24x19cm, 32 páginas, miolo em impressão jato de tinta sobre papel jornal, encadernação francesa e inserção de páginas soltas (11x18cm).
Tiragem de 100 exemplares numerados.


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Imemorial é um livro que compartilha a experiência de um longo período de convivência de uma personagem oculta com a biblioteca de livros do seu pai; a partir deste arquivo e de seus fragmentos, ela propõe pistas para possíveis caminhos, aberturas e desvios, chegando em um lugar de descanso, um oásis entre Amaralina, Japão e o universo geológico do escultor Isamu Noguchi. Ali, páginas soltas colecionadas há tempos ganham uma nova morada: títulos, epígrafes, dedicatórias, dias e anos viajam e flutuam em páginas ásperas, mergulhadas em um jardim de pedras, água e vento. Como uma escultura, cada livro guarda o seu segredo e cada arquivo, a sua miragem. A guardiã-colecionadora deste livro quer devolver ao mundo o seu ritual de encontrar coisas pequenas e gigantes dentro dos livros, oferendo a surpresa, o acaso e a promessa de um livro-amuleto, em busca de novas mãos para proteger o que está dentro e fora. Com tiragem de 100 exemplares, cada exemplar apresenta uma narrativa única, formada por essas páginas soltas originais. O processo de edição vira a despedida deste material uma fragmentação do próprio arquivo no mundo.



ver era um modo de ir embora ou de olhar para sempre. queria que fosse colheita. queria que as imagens se capturassem sem devolução, sem empréstimo, mas o exercício dos olhos era vazio. tinha nenhum recipiente, nenhuma reserva. sem tangibilidade, ver humilhava a memória, que nunca recuperaria a completude de coisa alguma. a memória era o resto da realidade. tinha-se obcecado com a ideia de arrancar as imagens pelo pé igual se fazia às flores. arrancá-las pelo pé para enfeitar dentro dos olhos. como se houvesse ali um compartimento infinito para acomodar céus inteiros e bichos, leques perfeitos e a transparência das águas.

(do livro homens imprudentemente poéticos, de valter hugo mãe)

Ideia do imemorial

Quando acordamos, sabemos, por vezes, que vimos em sonhos a verdade, clara e ao alcance da mão, de tal modo que ficamos totalmente dominados por ela. Umas vezes é-nos dado ver uma escrita cujo selo subitamente quebrado nos fornece o segredo da nossa existência. Outras vezes, uma só palavra, acompanhada de um gesto imperioso ou repetida num lenga-lenga infantil, ilumina como um relâmpago toda uma paisagem de sombras, devolvendo a todos os pormenores a sua forma reencontrada, definitiva.

No despertar, porém, embora nos recordemos, de forma límpida, de todas as imagens do sonho, aquela escrita e aquela palavra perderam a sua força de verdade, e é com tristeza que viramos de todos os lados, sem conseguir redescobrir-lhes o encanto. Temos o sonho, mas, inexplicavelmente, falta-nos a sua essência, que ficou sepultada naquela terra à qual, uma vez despertos, deixamos de ter acesso.

Raramente temos tempo de observar aquilo que devia ser perfeitamente evidente: que confiamos em vão a um outro tempo e a um outro lugar o segredo do sonho. Só no momento do despertar, quando nos vem como um lampejo, o sonho existe para nós na sua inteireza. A recordação que o sonho nos concedeu é a mesma que nos faz ver o vazio que aflige: as duas estão contidas num e no mesmo gesto.

A memória involuntária proporciona uma experiência análoga. Nela, a recordação que nos devolve a coisa esquecida esquece-se também dela, e esse esquecimento é a sua luz. Daí, porém, vem a nostalgia que anima: há uma nota elegíaca que vibra tão tenazmente no fundo de toda memória humana que, no limite, a recordação que não recorda nada é a mais poderosa das recordações.

Em vez de ver nessa aporia do sonho e da recordação uma limitação e uma fraqueza, devemos, antes, tomá-la por aquilo que ela é: uma profecia que tem a ver com a própria estrutura da consciência. Não é aquilo que vivemos e depois esquecemos que regressa, na sua imperfeição, à consciência; antes, somos nós que acedemos então a qualquer coisa que nunca foi, ao esquecimento como parte da consciência. É por isso que nossa felicidade está impregnada de nostalgia: a consciência contém em si o presságio da inconsciência, e esse presságio é precisamente a condição da sua perfeição. Isso significa que toda a atenção tende, em última instância, para uma distração, e que, no seu limite extremo, o pensamento não é mais que um estremecimento. Sonho e recordação mergulham no sangue de dragão da palavra e, desse modo, tornam-na invulnerável à memória. O imemorial, que se precipita de memória em memória sem nunca chegar à recordação, é verdadeiramente inesquecível. Esse esquecimento inesquecível é a linguagem, é a palavra humana.

Assim, a promessa que o sonho formula no próprio momento em que se dissipa é a de uma lucidez tão poderosa que nos entrega à distração, de uma palavra tão completa que nos reenvia para a infância, de uma razão tão soberana que se compreende a si mesma como incompreensível.

Giorgio Agamben


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